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| Editora: Companhia das Letras Ano: 2005 Páginas: 208 |
Tão natural quanto a vida é a morte e esta ainda mais certa que aquela.
Como diria Vinicius de Moraes, "a morte é a angústia de quem vive", mas talvez a vida sem morte também o seja. Uma confere significado a outra, não há como imaginar um mundo em que a morte, ou as mortes, não existam. É nesta dicotomia que se consagra a narrativa de Saramago em "As Intermitências da Morte".
Num primeiro momento, sem nenhum aviso, um país inteiro é felicitado, ou condenado, a não mais morrer. Sim, desde às zero horas do primeiro dia do ano, não há defunções. Aqueles que se encontravam a beira da morte, encontram-se agora em estado de "morte suspensa".
Com muita ironia, Saramago nos apresenta o cenário criado por esta nova realidade, sobretudo no que diz respeito à moral, economia, política, relações familiares e hipocrisia velada. Os problemas que vão aparecendo, de asilos que vão ficando lotados, de funerárias que não podem mais trabalhar, seguros de vida sem propósito e hospitais lotados, são resolvidos das formas mais mirabolantes.
"Que dirá a vizinhança, perguntou, quando der por que já não estão aqui aqueles que sem morrer, à morte estavam"
Em meio ao caos geral, a morte dá o ar da graça, anunciando que a partir do dia seguinte todos voltarão a morrer como antes, com o único diferencial de que serão informados, por ela mesma, uma semana antes de acontecer, por meio de um bilhete de cor violeta, assinado simplesmente por "a morte", em minúsculas. O bilhete lhes informava do prazo improrrogável de 7 dias para morrer, dias estes que deveriam servir para os acertos financeiros finais e despedidas.
Mas uma destas cartas, volta ao remetente. Agora a morte, personificada em um esqueleto de gadanha e capa, tem que descobrir como conseguiu tal feito, um certo violoncelista. Aqui se inverte o ponto de vista da narração. Agora vamos dar continuidade à fábula pelos olhos da morte.
Interessante é que a morte vai nos aparecendo com perspectivas morais mais elevadas que os próprios humanos. E ainda que a morte tente, jamais ganha a empatia dos humanos, seja quando some, seja quando aparece, seja quando avisa que está por vir.
A prosa de Saramago não é de todo fácil, a linguagem é arcaica, mas elegante e concisa. E assim como Machado de Assis (em bem da verdade, acho que os dois possuem algumas semelhanças relevantes), ele gosta de conversar com o leitor. Apesar de fininho, não é um livro que se lê em um dia, uma vez que exige certa atenção, mas é sim agradável, instigante e bem divertida. Obviamente que não é a melhor obra de Saramago, mas tem o seu charme.
"Enfim, de deus e da morte não se tem contado senão histórias, e esta não é mais que uma delas".
Edição _________________

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